Conversas com Woody Allen

Estou saindo completamente do ritmo e do que eu me comprometi a postar pelo simples fato de que agora fazendo aulas de roteiro e necessariamente lendo coisas voltadas à área, me restou menos tempo para assistir aos dramas. Continuo vendo só que em um ritmo mais lento… Então, como agora eles estão concorrendo mais com a lista de filmes a analisar e rever, venho propor também falar sobre filmes. Eu sei que, por hora, vai ficar muito abrangente meus temas para posts, mas o meu foco sempre será doramas.

Com o livro Conversas com Woody Allen aprendi muito. Primeiro porque, nota-se que ele tem um senso e uma noção de realidade, objetividade e até um pragmatismo únicos, quando você lê Woody Allen falando sobre seus filmes, seus roteiros, como foi filmá-los, quais foram as dificuldades, o por quê de seu gênero principal ser a comédia, com aquela humildade não intencional e aquela concepção de vida… Não é por acaso que são bons filmes talvez porque haja uma boa mentalidade por trás deles. Talvez porque ele deseje ser sempre verdadeiro com relação à sua ideia e a como transmiti-la, sem tentar ir ao encontro das marés de mercado, sem se deixar levar pelas críticas ou pela fama.

Conversas com Woody Allen é uma compilação de entrevistas do jornalista Eric Lax que acabou se tornando amigo de Allen e elencou entrevistas que começaram desde os anos 70 até 2007. Vejo então a necessidade de transcrição de algumas perguntas e duas páginas desse livro que ao meu ver transmitem todo seu espírito, sua ideia a respeito dos filmes.

“Você se vê como artista? Tenho uma visão muito realista de mim mesmo. Algumas pessoas acham que é humildade excessiva, ou até mesmo falsa modéstia, quando digo que nunca fiz um grande filme. Quando eu dramatizo minhas observações da vida, dizem que é cinismo. Mas não é nada disso, em nenhum dos casos. Estou dizendo a verdade. Não me vejo como um artista. Eu me vejo como um cineasta trabalhador, que escolheu seguir no rumo de trabalhar o tempo todo em vez de fazer dos meus filmes algum evento especial do tapete vermelho de três em três anos. Não sou cínico, e estou longe de ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho. (pg 140)

[dentro de uma resposta para uma outra pergunta] “(…) Quando alguém fala o quanto é mais difícil fazer comédia, não quer dizer mais difícil, quer dizer mais raro. Simplesmente a comédia vem de modo natural para algumas pessoas, e o material dramático vem de modo natural para outras. E eu sinto que sempre vou ser mais capaz de fazer o público rir do que o Ingmar Bergman. Se nós dois tivéssemos de fazer doze comédias cada um, as minhas iam ser mais engraçadas. Eu faria o público rir. E o contrário, claro, com filmes sérios. (pg 148)

 [dentro de uma resposta para uma outra pergunta] “(…) Quando eu estava fazendo Match Point, eu acordava de manhã e lá estava Jonathan Rhys-Meyers e a linda Scarlett Johansson, e eu passava o meu tempo com eles o dia inteiro, e a gente fazia piadas e tentava fazer coisas muito sérias quando era uma cena séria, e às vezes ríamos muito depois que acabava, ou antes de rodar, por causa da tensão de fazer aquilo, ou do constrangimento, ou só pelo prazer que estávamos tendo, o prazer malicioso que temos ao fingir que somos tão durões.

“Faço isso durante algum tempo, depois levo o copião e sento com o meu editor na sala de montagem, peço um sanduíche de atum e a coisa toma forma, é muito prazeroso. É igual a fazer a casa em Southampton. Vira uma coisa estética e prazerosa. E então chega um ponto em que está basicamente acabado. Você não precisa de nada além de umas decisões aqui e ali. E então [ele estala os dedos], lança-se o filme, e as pessoas gostam ou não gostam. E eu preferia não ficar sabendo. Fiz o filme e está acabado. Faz parte da minha personalidade depressiva não comemorar um sucesso e não ficar com uma lança cravada no coração quando um filme fracassa.

“Anos atrás, quando Manhattan estreou em Nova York – foi muito divulgado antes de estrear -, não fui na première, no Ziegfeld Theater, nem depois na grande festa no Whitney [Museum of American Art], entrei num avião uns dias antes e fui para Paris. Então as pessoas pensam, ele não liga, ou é muito indiferente, ou é metido, arrogante, mas como eu disse, não é nada disso. Não é arrogância, é mais ausência de alegria. Não me emociona. Não quer dizer nada [sorri]. Mas Paris me emociona.

“Estou tentando explicar como eu me sinto, e consigo entender por que isso é mal interpretado: não existe honra que um ser humano possa me dar que signifique alguma coisa para mim. Para mim, receber alguma coisa que tenha significado para mim exigiria um universo diferente. [Dá uma risadinha] Sei que isso parece excentricidade, ou orgulho, ou “ele acha que está acima de tudo”. Mas não estou acima de nada. Ou estou abaixo, ou pelo menos do lado [ri mais forte].

“Por que isso? Porque os prêmios são feitos para juntar poeira; eles não mudam a sua vida, não afetam a sua saúde de forma positiva, nem a sua longevidade ou sua felicidade emocional. Os lugares que você quer consertar na sua vida, ou ajudar, o ajuste e o conforto de que você precisa, não são tocados pelas grandes honras do mundo.

“Então, o mundo inteiro parado no túmulo de Shakespeare, entoando loas a ele e fazendo dele uma instituição maior que a vida no planeta, não significa absolutamente nada para o Bardo. E não teria significado nada se ele estivesse vivo e na estreia de Hamlet [começa a rir] tivesse uma dor de dente [rindo mais forte agora]. Recebe-se um pequeno conforto da ciência e da tecnologia. É óbvio que eles não têm todas as respostas, mas têm algumas coisas que podem ajudar. O que ajuda mesmo é ter acesso à vacina Salk e ao filtro solar. Mas o resto todo – os filósofos, os cientistas, essa outra coisa – é tudo… [Ele se cala].

[Nota do entrevistador] “(Os comentários me lembram uma coisa que ele me disse no final dos anos 80, enquanto estava filmando Crimes e pecados: “Por que não optar por uma vida sensual em vez de uma vida de trabalho extenuante? Quando você chega no portão do céu, entra o sujeito que passou a vida inteira perseguindo e perseguindo mulheres e teve uma vida de sibarita, e você entra também. A única razão que consigo imaginar para não entrar é uma outra forma de negação da morte. Você se ilude de que existe uma razão para levar uma vida significativa, uma vida produtiva de trabalho, e luta e busca aperfeiçoamento numa profissão, numa arte. Mas a verdade é que você poderia passar esse tempo se permitindo tudo – supondo-se que tenha dinheiro para isso – porque as duas vidas levam ao mesmo lugar.

“Se eu não gosto de alguma coisa, não importa quantos prêmios essa coisa ganhe. É impossível manter o seu próprio critério e não ceder às tendências do mercado. Espero que em algum momento se perceba que na verdade não sou um descontente, ou que a minha ambição, as minhas pretensões – que eu admito francamente – não são de conquistar poder. Só quero fazer alguma coisa que entretenha as pessoas, e estou me desdobrando para isso”. Mas ele não se incomoda de fato se o público não se diverte: “Na verdade, estou acostumado com isso”.) (pgs. 162 e 164)

[Trecho de uma entrevista na internet] Allen e Soon-Yi Previn se casaram em 1997. “Se alguém me dissesse quando era mais jovem, ‘Você vai acabar se casando com uma moça 35 anos mais jovem que você e além disso, uma coreana, fora do show business, nada interessada no show business’, eu teria dito, ‘Você está completamente maluco'”, disse Allen.

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2 respostas para Conversas com Woody Allen

  1. Flávia disse:

    Nossa muito bom …..
    e acho legal a variedade…
    assim seu blog vai ser um diferencial….
    cheio de coisas novas sempre…
    Bjos

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