Mais estranho que a ficção

Sempre me considerei um ser antissocial. Mas de uns tempos para cá resolvi reconsiderar isso. Uma porque tenho fixação por histórias, contar histórias, ouvir histórias, ler histórias, ver histórias. E para tanto há um potencial comunicador aí implícito que me faz querer cada vez mais lidar com pessoas, conhecer pessoas, (por que não dizer personagens?). Segundo porque diálogos e conversas se prestarmos a devida atenção são tão estimulantes (para mim) desde Jane Austen e mais minhas amigas do ensino médio.

Eu sempre prezei muito o bom papo. Coisa estranha e esquisita, uma vez que sempre falei muito pouco e que ler me alienou demasiadamente, pois o ato de ler é sozinho e o muito pensar, fatídico.

Com o tempo, fui percebendo que agregar não é tão ruim assim, e que, nós como telespectadores (quando leitores) podemos ficar mais próximos dos personagens, mas como amigos (aka figurantes) dos atores da realidade (pff) nós os compreendemos melhor por vê-los de perto e em retrospecto (quase 4D).

Eu sempre fui uma grande telespectadora. E ver de perto todos os tipos de pessoas e suas histórias é algo que você simplesmente não pode se negar a vivenciar só para carregar consigo a sua classificação condecorada de “antissocial”.

Geralmente é uma característica das pessoas “perdedoras” aka losers serem mais antissociais. Mas elas só são consideradas antissociais porque querem se encaixar na sociedade e “vencer” dentro dela – sendo como os outros e tendo o mesmo padrão de sucesso e felicidade que os outros -; se eles não tivessem essa necessidade de conexão com as outras pessoas, não seriam losers, seriam alternativos. Mas, se considerarmos que eles querem vencer na sociedade, então, losers: you’re doing it wrong.

Mas “antissocial” é colocado como aquele que não participa daquilo que a maioria das pessoas participa por não se sentir bem. Se pensarmos bem, existe ser antissocial convivendo dentro da sociedade? Isso é possível? Você está certo disso?

Chuck Palahniuk me fez pensar em tudo isso no seu livro “Mais estranho que a ficção”. Eu terminei de ler ontem. Mais precisamente me apaixonei por Marilyn Manson em “Ler para você mesmo” e sua frase: “É estranho, mas embora a música seja algo para se escutar, acho que a música nos ouve também, sem julgar. Um garoto pode encontrar algo com que se identifique. Ou um adulto. É um lugar para onde você pode ir, onde não vão julgá-lo. Não há ninguém dizendo no que você deve acreditar.”

Chuck também faz um retrato de Juliette Lewis em “Nas palavras dela”. São pequenos “contos” sobre determinadas pessoas e seus estilos de vida, suas manias, sua intimidade, coisas que nunca vimos, consideramos ou imaginamos. São pinceladas de modos de vida contemporâneos e uma enxurrada toda sobre escrita e literatura.

A realidade é muito mais rica que toda ficção já criada, a ficção é basicamente respiros da realidade ou uma peça de retalhos dela. A ficção é um emaranhado de realidade, é a realidade da sua cabeça (como autor), é algo que depois de escrito pode até se tornar real. (Como ele cita o exemplo de Clube da Luta). Por que não?

Chuck me fez pensar em romances transgressores e a força e adrenalina que eles geram. É vontade de mudança, de terrorismo, de puro CAOS, é causar mesmo. O João me disse outro dia que “o ser humano não é social droga nenhuma”. E eu já digo a vocês que “o ser humano não é antissocial droga nenhuma”. O que me diz claramente isso é a eficácia com que ele mesmo faz amizades (com uma facilidade incrível). É falando mal dos outros. Falando mal mesmo. Criticando, zoando. CAUSANDO. É fazer o  CAOS que está na moda. Nós não queremos saber mais de mesmice. Se você causar, as pessoas vão te notar, talvez elas até parem para pensar a respeito. Elas te seguirão. As pessoas querem ser movidas pelo CAOS, elas querem participar disso. Elas querem coisas diferentes. Elas querem greves, pichações, badernas, estardalhaços, multidões, pânico, causar mesmo.

Causar faz parte do “personagem” que você carrega como seu. Esse tempo todo, esse seu estilo de se vestir, as músicas que escuta, o jeito como você fala, com quem anda, o que acredita é uma questão de corroborar com esse personagem que você sustenta como seu. Estou errada? Em “O ampliador de lábios” Chuck fala da beleza e dos lábios de Brad Pitt, mas não é sobre o Brad, é sobre esses personagens que somos e nossa busca louca por mantermos isso. É o que temos. Você já causou hoje?

Quando você sai por aí e toca o horror é libertador. É sobre isso que os livros de Chuck Palahniuk falam. É por isso que eu adoro o Chuck. É por isso que tocar o horror é mais agregador que qualquer coisa. As pessoas querem a diferença, o novo, a liberdade através da subversão. É adrenalina pura. É a salvação desse tédio.

Chuck Palahniuk é fodástico, com um humor indescritível, uma descrição mordaz da realidade. Tem uma alegria amarga e um “assustador-bom” que nos faz “perder o medo de viver” e ver que pintar a realidade está pau a pau com a ficção. Ele me fez querer ler Psicopata americano, A gangue da chave-inglesa e todos os livros do Sr. Ira Levin (O bebê de Rosemary, Mulheres Perfeitas) e o minimalismo de Amy Hempel. Ele até me fez lembrar da Miguita com a citação “O que Carl Jung pensaria de tudo isso?”. (rs)

A verdade é que Mais estranho que a ficção deixa um gostinho de quero mais. E ele diz algo que resume tudo o que eu disse nesse post: “O mundo é feito de pessoas que contam histórias. Vejam só o mercado das ações. Olhem a moda. E qualquer história mais longa, qualquer romance, é apenas a combinação de histórias curtas.” E no começo do livro: “Se você não notou, todos os meus livros tratam de pessoas solitárias que buscam alguma forma de se conectar aos demais.”

Tudo o que fazemos nos blogs, nas redes sociais é contar histórias. Compartilhamos histórias. Vivemos o que depois só será uma história. Nosso cotidiano – se não contarmos as coisas que fazemos – tudo só se dá através das trocas, dos diálogos, das interações. Errado? Existe então o antissocial? Se existe, ser antissocial implica em não gostar de histórias. E, eu, muito pelo contrário. Deixa eu contar uma história pra vocês…

Sobre migraziele

Tamires, ou migraziele, tem 22 anos e é estudante de arquitetura e urbanismo. Gosta da Coréia do Sul, dos coreanos, dos doramas e de cultura asiática em geral. Gosta de livros, café, fotografia, moda e de viajar como dois terços da internet.
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