Bartleby, o escrivão

Hoje vou falar sobre um conto de Herman Melville. Li recentemente a edição da Cosac & Naify e deixo aqui uma explicação da editora sobre:

“Para ler a nova edição deste clássico de 1853, o leitor começa pelo desafio de descosturar a capa (puxando para baixo a linha vermelha que a lacra) e cortar as páginas não refiladas do livro (com a espátula plástica que acompanha o livro). Só assim, aos poucos, poderá desemparedar este personagem enigmático da ficção moderna que, no dizer do filósofo francês Gilles Deleuze, “desafia toda a psicologia e a lógica da razão”.”

Tem apenas 88 páginas, super rápido de ler, tem uma história que prende pelo jeito intrigante com que é revelada aos poucos. É uma daquelas histórias absurdas que estão cheias de humor situacional e inevitavelmente gritando sobre questões da nossa vida cotidiana, beirando um drama existencial.

Quando você se depara com Bartleby automaticamente começa a se questionar sobre todas as suas próprias situações em que é exposta a sua personalidade e também sobre seus próprios traumas psicológicos. Será que nem todo mundo tem um comportamento que posso ser considerado estranho, inadequado e que reflita questões internas?

Melville com esse conto foi comparado à Kafka, e que tem forte influencia de Camus. Será? É considerado o precursor do Absurdismo na literatura.

O interessante desse livro é que as palavras de Melville bailam sobre as páginas e uma música toca de fundo e nos concentra, nos submerge na história. Parece que não, mas sabemos identificar facilmente quando lemos um livro se o autor tem ou não tem a técnica da escrita devidamente polida, se o autor tem ou não tem aquele dom, aquela distinção nata de uma história com potencial.

O potencial de Bartleby salta aos olhos. É um personagem tão marcante e influenciador, que como exemplo, digo desde já que todos nós aqui na empresa (os quais o livro circulou em mãos) nos tornamos adeptos convictos de seu famoso bordão “acho melhor não”.

Eu diria que Bartleby é uma proposta para repensarmos na sociedade e nas questões trabalhistas e sociais nos quais nos prendemos sem saber direito o porquê disso. É um diálogo com os padrões sociais e o indivíduo que está preso a isso, que consiste em um ser pensante que será afetado direta ou indiretamente e trará em si as conseqüências de seguir esse padrão.

É como as cabeças de TV de Blek le rat ou aquele clipe do System of a down (BYOB) em que todas as cabeças são iguais… É no mesmo princípio e questionando as mesmas idéias de “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley.

Bartleby é contado em primeira pessoa por um advogado não tão confiável e acomodado que contrata Bartleby como escrivão. Como chefe ele acaba pedindo para Bartleby fazer revisão de alguns documentos, além de cópias dos documentos. Nesse e em todos os outros pedidos do chefe, Bartleby simplesmente diz “acho melhor não”.

Ele simplesmente se recusa a fazer qualquer coisa e o chefe não consegue fazer nada contra Bartleby. Bartleby acaba até morando no escritório e o chefe, sabendo da estranheza de bartleby e se convencendo de que ele tem seus motivos.

Mas a reputação dele anda em jogo entre os advogados e como Bartleby não abandona mais o escritório, ele mesmo decide ir embora. Não há motivo aparente para Bartleby agir assim, o que nos deixa muito intrigados e o que o narrador também procura saber.

Bartleby acaba indo para prisão, onde acha melhor não comer e recusa a amizade do narrador que vai visitá-lo. Bartleby morre. Algum tempo depois o narrador soube da história de vida de Bartleby, onde trabalha na Dead Letter Office mexendo com cartas mortas, isso talvez pudesse ter refletido no temperamento de Bartleby.

“As cartas são emblemas de nossa mortalidade e a falha de nossas boas intenções.”

Um conto tocante em que Bartleby mudou a vida do narrador, mas não só dele, e sim, de todos aqueles que leem. Sem palavras para esse livro, ou melhor, acho melhor não.

Jessica Jung também tem uma palavrinha a dizer?

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2 respostas para Bartleby, o escrivão

  1. Uau parece bem profundo, daqueles livros que fazer vc reflexionar sobre tudo. Amei o bordão. Outro que terei que ler! Como é curtinho, vai ser mais fácil para eu ler, pq não sou muito fã de Absurdismo. Gostei da resenha, profunda e concisa. Bjs

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